CRÔNICA | Eu gosto mesmo é dos “feinhos”

 

Aplicando a sustentabilidade em pequenos atos do dia a dia 


Quando ainda ministrava Sociologia para o Ensino Médio, uma das minhas muitas histórias contadas em sala de aula era a da tal fruta feia.


Na minha primeira viagem ao Napa Valley, Califórnia, ao visitar um mercado local, observei uma pequena e simpática senhora escolher as frutas que levaria: maçãs, bananas e laranjas.


Sempre muito curiosa pelas interações sociais e grande amante de feiras - e de comida, óbvio! - fiquei ali quietinha, correndo minhas mãos entre mostardas e geleias artesanais, mas nunca tirando o olho da tal mulher.


A banana, completamente preta e definhada, foi escolhida. A maçã murchinha também. A laranja, que parecia ter mais sardas do que eu, foi para a sacola fazer companhia às amigas. 


De início, pensei: as frutas feias devem ser mais baratas, por isso ela está levando. Não era. O preço era exatamente o mesmo de todas as outras. A lógica de consumo, no entanto, era diferente daquela que eu estava familiarizada. 


Ao escutar a senhora dizer ao vendedor "estas serão consumidas hoje, podem ser feias”, eu parei, pensei e guardei aquela velha senhora, com todas as suas frutas feias, dentro da minha própria caixola.


Hoje em dia, ao escolher meus vegetais, dou chance para os feinhos, claro. Quase todo os dias escuto alguém lá de casa dizer "Lella não sabe escolher batata doce, sempre compra as piores”.


Ué, as batatas não são parte dos ingredientes da sopa que fará parte do jantar de hoje? Qual é a lógica de escolher a batata mais bonita se amanhã a feia pode ser descartada, sem qualquer comprador, e vai parar no lixo? Por qual motivo eu vou comprar a banana mais amarelinha para fazer um bolo ou uma sobremesa se a pretinha é perfeitamente utilizável e ainda mais doce?


Os feinhos também são nutritivos e saborosos e, escolhendo-os, você faz a sua parte para evitar o desperdício de comida, além de praticar um baita exercício de evolução pessoal, provando que é alguém capaz de pensar no hoje - quantas pessoas, neste exato momento, estão morrendo de fome? -, no amanhã - para onde vão os vegetais feios se não o utilizarmos agora? - e no outro - que tal deixar o produto mais bonito, que durará mais dias nas gôndolas, para quem comprar depois de mim?


Confesso: eu prefiro mesmo os feinhos. Beleza, lá em casa, não (com)põe mesa.


De bonito, já basta o meu marido!


Por Lella Malta 

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