DECOR – DF: as digitais do crime

 Investigação da DECOR, mira pagamentos suspeitos em contratos de imóveis custeados pelo GDF

Quem imaginou que a operação realizada pelo Departamento de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (DECOR) na Secretaria de Economia do Distrito Federal e em endereços ligados ao ex-secretário Ney Ferraz se resumia a uma simples busca por documentos talvez esteja olhando para o lugar errado. Nos bastidores da investigação, a percepção é de que a ofensiva policial representa o fechamento de uma longa etapa de trabalho construída a partir de relatórios de inteligência, cruzamento de dados, análises financeiras e monitoramento realizado ao longo dos últimos anos.

Ney Ferraz não surgiu agora no radar das autoridades. Seu nome já figurava em investigações que resultaram em condenação a 9 anos e 9 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, decisão posteriormente confirmada em segunda instância e ainda sujeita a recursos. Sua esposa, Emanuela Ferraz, também foi condenada por lavagem de dinheiro. O histórico transformou o ex-secretário em personagem permanente de atenção para órgãos de controle e investigação.

A avaliação de fontes que acompanham o caso é que os documentos recolhidos recentemente podem servir para consolidar um conjunto probatório que vem sendo construído há muito tempo. O foco das apurações estaria concentrado em contratos, pagamentos e despesas relacionadas a imóveis custeados com recursos públicos. A suspeita investigada é a de que determinadas operações financeiras possam ter servido para alimentar mecanismos incompatíveis com os princípios da administração pública.

Quem conhece a rotina das grandes investigações sabe que operações dessa natureza raramente marcam o começo de uma história. Normalmente representam o momento em que a polícia busca confirmar documentalmente aquilo que já foi identificado por meio de inteligência, movimentações financeiras e informações acumuladas durante meses ou anos de trabalho silencioso.

O peso político da investigação também decorre da posição ocupada por Ney Ferraz dentro do círculo mais próximo do ex-governador Ibaneis Rocha. Durante anos, seu nome esteve associado ao núcleo duro do governo, grupo frequentemente identificado nos bastidores de Brasília como a “República do Piauí”. Ney era considerado um dos homens mais influentes da área econômica e uma das peças centrais da engrenagem administrativa que comandava o fluxo das decisões financeiras do Palácio do Buriti.

Não se tratava de um técnico isolado em uma sala de gabinete. Como secretário de Economia, passavam por sua mesa contratos, despesas, pagamentos e decisões que movimentavam bilhões de reais dos cofres públicos. Era um dos principais operadores da política econômica do governo e ocupava posição estratégica dentro da estrutura de poder construída ao longo da gestão.

Nos corredores do poder, a sensação é de que a operação da DECOR está longe de representar um ponto final. Há quem veja nos mandados cumpridos recentemente apenas a última peça de um quebra-cabeça montado ao longo de anos. Se essa percepção será confirmada pelas investigações e pela Justiça, o tempo dirá.

O que já não passa despercebido é que o cerco ficou mais estreito. E quando uma investigação atravessa governos, acumula relatórios, documentos, movimentações financeiras e decisões judiciais, dificilmente procura respostas por acaso. Normalmente está tentando confirmar aquilo que acredita ter encontrado. É exatamente nesse ponto que a história parece ter chegado.

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