Fernando Fernandes fala sobre Ceilândia, segurança, educação e retorno à política

Em entrevista a Fran Mendonça, no Viva Brasília, delegado contou como nasceu o sonho de ingressar na Polícia Civil, relembrou episódios da carreira, avaliou sua passagem pela política e apresentou posições sobre segurança pública e educação



O delegado Fernando Fernandes relembrou sua trajetória pessoal, profissional e política durante entrevista concedida à apresentadora Fran Mendonça, no programa Viva Brasília. Nascido e criado em Ceilândia, ele contou que começou a trabalhar ainda adolescente e passou por diferentes atividades antes de ingressar na Polícia Civil.

Ao longo da conversa, Fernandes falou sobre operações policiais que marcaram sua carreira, violência contra a mulher, prevenção ao envolvimento de adolescentes com a criminalidade, sua passagem pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e pela Administração Regional de Ceilândia. Também apresentou posições e propostas relacionadas à segurança pública e à educação.



De servente de obras ao sonho de ser delegado
Filho de nordestinos, Fernando Fernandes contou que começou a trabalhar por volta dos 13 anos. Antes da carreira policial, foi servente de obras, feirante, ambulante e cobrador de ônibus.

O desejo de se tornar delegado, segundo ele, ganhou força aos 17 anos, quando trabalhava como servente de obras na construção do Clube dos Delegados de Brasília. “Eu me encantei e falei para os demais colegas, peões de obra, que um dia eu iria voltar ali como delegado de polícia. Para que eu fui falar isso? Virou piada na hora”, relembrou.

Fernandes contou que os colegas passaram, de forma irônica, a chamá-lo de “doutor”. O que poderia ter servido como motivo para desistir acabou, segundo ele, funcionando como incentivo. “Naquela piada, acabaram me fortalecendo e talvez até, sem querer, profetizando uma vitória na minha vida”, afirmou.

A trajetória ganhou outro capítulo quando conheceu José Fernandes, então diretor da instituição onde trabalhava. Anos mais tarde, já na faculdade de Direito, Fernando voltou a encontrá-lo, dessa vez como professor. Segundo o delegado, o incentivo recebido foi importante para que continuasse perseguindo o objetivo de ingressar na carreira policial.

Fotos: Renato Oliveira.

Carreira na Polícia Civil
Fernando Fernandes afirmou que entrou para a Polícia Civil em 1993, inicialmente como escrivão. Seis anos depois, ingressou na carreira de delegado.

Durante a entrevista, relatou ter trabalhado em diferentes delegacias e regiões administrativas do Distrito Federal, incluindo Ceilândia, São Sebastião, Taguatinga, Vicente Pires, Riacho Fundo, Samambaia, Recanto das Emas e a área central de Brasília.

Ao recordar experiências profissionais, destacou uma atuação integrada de diferentes órgãos públicos na região central da capital. Segundo Fernandes, o trabalho envolveu Polícia Civil, Polícia Militar e instituições voltadas à infância e juventude.

Entre as experiências que considera mais marcantes, citou o primeiro contato com uma área conhecida como “Buraco do Rato”, no Conic. Fernandes afirmou que entrou no local disfarçado para conhecer a situação antes de iniciar as ações policiais.

“Eu gosto de sempre conhecer a área, o campo minado onde vou trabalhar. Coloquei uma camisa, um short, uma sandália, um boné e entrei. Fiquei horrorizado com o que vi”, relatou.

Violência contra a mulher
Outro tema abordado foi a violência doméstica. Fernandes afirmou que se especializou no assunto e que realiza palestras sobre a Lei Maria da Penha há mais de 15 anos. “Não adianta a gente querer colocar o juridiquês no meio da população, porque você vai acabar falando grego. Então, a gente procura levar informações sobre a Lei Maria da Penha, Lei de Drogas, Estatuto da Criança e do Adolescente”, declarou.

O delegado também relatou um caso de violência doméstica ocorrido no Recanto das Emas que, segundo ele, marcou sua carreira pela gravidade das agressões sofridas pela vítima. “Foi um caso que marcou bastante, entre outros tantos que a gente poderia falar, pela crueldade e pelo sofrimento que a vítima levou consigo durante alguns meses”, afirmou.

Da delegacia para a política
Questionado por Fran Mendonça sobre como decidiu entrar na política, Fernandes afirmou que a ideia começou a surgir durante sua atuação policial, especialmente pelo contato com adolescentes apreendidos e suas famílias.

Segundo ele, a experiência na Delegacia da Criança e do Adolescente despertou o interesse em desenvolver ações preventivas. “Aqui na delegacia a gente apreende, interna. Por que não me aventurar, primeiramente, no Conselho Tutelar? Para fazer um trabalho de informação e de educação com jovens, principalmente adolescentes, que muitas vezes são recrutados e seduzidos pelos criminosos, especialmente traficantes”, explicou.

Posteriormente, Fernandes disse ter identificado na Câmara Legislativa uma possibilidade de ampliar esse trabalho. “Aonde eu poderia levar essa informação? Na Câmara Legislativa, com projetos ligados à segurança pública e, principalmente, educação de qualidade”, declarou.

Educação em tempo integral
Entre as políticas defendidas por Fernandes durante a entrevista está a ampliação do ensino em período integral. Na avaliação dele, o contraturno pode ser utilizado para oferecer esporte, cultura, lazer, reforço escolar e orientação aos estudantes. “Eu defendo o ensino em período integral, principalmente para os pais que trabalham fora e o filho fica ocioso”, afirmou.

Segundo Fernandes, a proposta também poderia incluir conteúdos de formação cidadã e informações sobre direitos e deveres.

A relação entre educação e prevenção ao crime voltou a aparecer no fim da entrevista. Ao ser questionado sobre a escolha entre educação e repressão, respondeu: “Combater o crime é muito bom, mas preveni-lo é melhor ainda.”

Projetos durante passagem pela CLDF
Ao falar sobre sua atuação como deputado distrital, Fernandes destacou iniciativas que, segundo ele, tiveram maior repercussão durante o período.

Uma delas foi o projeto relacionado ao chamado “Sinal Vermelho”, mecanismo em que uma mulher em situação de violência poderia desenhar um “X” vermelho na mão e mostrá-lo discretamente a um atendente de estabelecimento comercial para pedir ajuda.

Fernandes afirmou que a ideia surgiu durante uma palestra realizada no período da pandemia, após uma participante sugerir a criação de um código que permitisse à mulher comunicar discretamente uma situação de violência. “Uma senhora levantou o braço e perguntou: ‘Delegado, por que o senhor não cria um código para a mulher que está sofrendo violência?’”, relembrou.

Ele também citou uma iniciativa voltada à criação de uma “capela social”, com a finalidade de proporcionar às famílias de baixa renda um período de despedida do familiar falecido. “Capela social consiste em quê? Pelo menos uma hora numa capela para que familiares e amigos possam se despedir dignamente do ente querido”, explicou.

Outro projeto mencionado por Fernandes envolveu gratuidade de refeições nos restaurantes comunitários para pessoas inscritas no Cadastro Único durante a pandemia.

Ao explicar a motivação, afirmou que presenciou famílias em dificuldades financeiras pedindo dinheiro para conseguir comprar refeições. “A fome não espera. Era muito triste você ver pais e mães de família mendigando R$ 1, R$ 2 para levar comida para casa, para os filhos”, declarou.


Passagem pela Administração de Ceilândia
A entrevista também abordou uma decisão que o próprio Fernando Fernandes classificou como um erro político: deixar temporariamente a atividade parlamentar para assumir a Administração Regional de Ceilândia.

Fernandes contou que o convite inicialmente seria para uma passagem curta, mas acabou permanecendo aproximadamente dois anos na função.

“Hoje eu reconheço, tenho a maturidade de reconhecer que foi um erro, porque muita gente fala: ‘Delegado, eu votei em você para deputado, não para ser administrador de Ceilândia’”, afirmou.

Ele disse que, diante de uma situação semelhante, tomaria outra decisão.

“Hoje eu agradeceria qualquer convite dessa natureza e passaria a bola para a frente. Realmente, acho que poderia ter feito mais como deputado”, avaliou.

Apesar da autocrítica, Fernandes ressaltou a ligação pessoal com Ceilândia e disse considerar uma honra ter comandado a administração da cidade onde cresceu.

“Nasci e fui criado em Ceilândia. Trabalhei no Hospital de Ceilândia, fui delegado-chefe das quatro delegacias de Ceilândia. Então, ser administrador, para mim, foi uma honra muito grande”, afirmou.

Monitoramento eletrônico
Ao falar sobre propostas para segurança pública, Fernandes defendeu a expansão do monitoramento eletrônico em ruas, praças e locais de grande circulação.

“Eu sempre tive o sonho do monitoramento eletrônico nas ruas, nas praças de grande movimentação, locais de grande concentração”, afirmou.

Na proposta apresentada durante a entrevista, as câmeras estariam integradas às forças de segurança para permitir acompanhamento de diferentes pontos e acionamento das equipes em situações consideradas suspeitas.

“Um só policial, ou alguns policiais, podem monitorar vários pontos ao mesmo tempo. Em caso de alguma atitude suspeita, pega o rádio ou telefone e aciona a viatura. Rapidamente o atendimento é feito”, explicou.

Posições sobre segurança pública
No bate-bola realizado no fim do programa, Fernandes apresentou posições sobre diferentes assuntos ligados à segurança.

Questionado sobre o que considera atualmente um dos principais problemas do setor, respondeu: “Diria que hoje é a legislação e a falta de efetivo.”

Ele também se declarou favorável à redução da maioridade penal para 16 anos e à instalação de mais câmeras nas ruas.

Ao tratar das forças policiais, classificou a Polícia Civil como “minha paixão” e, ao responder sobre Brasília, afirmou que a capital “precisa de mais saúde, segurança e educação”.

Fernandes também manifestou, durante a entrevista, posição favorável à posse legal de armas por pessoas que atendam aos requisitos técnicos e psicológicos exigidos. A declaração foi apresentada no contexto de uma discussão sobre CACs e política de armas.

“É melhor você ter uma arma em casa e nunca precisar usá-la do que um dia precisar e não ter”, afirmou.

“Ser político é desafio”
Na reta final da conversa, Fran Mendonça propôs uma sequência de perguntas rápidas. Ao completar algumas frases, Fernando Fernandes definiu a profissão de delegado como “muito boa, gratificante” e a atividade política como um “desafio”.

Sobre Ceilândia, resumiu: “É maravilhosa.”

Perguntado sobre uma característica pessoal, apontou persistência e resiliência. Curiosamente, utilizou a mesma característica para falar de um defeito.

“Eu acho que é persistência e resiliência. Muitas vezes persisto em coisas que não vão dar certo”, disse.

Ao resumir em uma palavra sua perspectiva para 2026, respondeu: “Fé”.

A entrevista conduzida por Fran Mendonça percorreu, assim, diferentes momentos da vida de Fernando Fernandes, da juventude como trabalhador em Ceilândia à carreira policial e à entrada na política. Entre memórias pessoais, autocrítica e apresentação de suas posições, o delegado colocou segurança pública e educação entre os temas centrais de sua atuação e de seus planos para a vida pública.


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