Cristiano Ferreira, advogado especialista em Direito Empresarial, analisa como juros elevados, inadimplência e mudanças tributárias podem impactar empresas brasileiras no próximo mandato.
A continuidade do governo Lula entre 2027 e 2030 deve ocorrer em um cenário de desafios para o setor produtivo. Juros elevados, restrições ao crédito, preocupação fiscal e implementação da reforma tributária podem pressionar o caixa das empresas e manter a recuperação judicial como alternativa para negócios que enfrentam dificuldades financeiras.
Segundo o Boletim Focus de 26 de outubro de 2026, a expectativa é de que a taxa Selic encerre 2027 em 11,75% e 2028 em 10%. Para 2027, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é de 1,31%. A combinação entre crédito caro e expansão econômica moderada pode limitar o aumento das receitas e dificultar o cumprimento dos compromissos financeiros.
A pressão também aparece nos indicadores de inadimplência. De acordo com a Serasa Experian, o Brasil registrou 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026, o maior número da série histórica. Embora nem toda empresa inadimplente recorra à recuperação judicial, o indicador sinaliza dificuldades para manter o equilíbrio financeiro e reforça a importância da renegociação antecipada das dívidas.
Outro ponto de atenção é a reforma tributária. A implementação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e a substituição gradual dos tributos exigirão adaptações em sistemas, contratos, preços e processos internos. Os efeitos poderão variar conforme o setor e a possibilidade de aproveitamento de créditos tributários, tornando o planejamento fiscal ainda mais importante para empresas que já enfrentam restrições de caixa.
Para Cristiano Ferreira, a recuperação judicial deve ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla de reorganização financeira, especialmente em cenários de crédito caro e dificuldades para renegociar dívidas. A redução da taxa básica de juros, isoladamente, não resolve o endividamento, já que o custo do crédito também depende das garantias exigidas, do risco atribuído à empresa e das condições de renegociação.
“A recuperação judicial pode ser uma ferramenta importante para empresas que enfrentam dificuldades financeiras, mas sua efetividade depende de um diagnóstico realista da situação do negócio e da capacidade de cumprir um plano de reestruturação. Quanto mais cedo os problemas forem identificados, maiores podem ser as possibilidades de negociação e preservação das atividades”, afirma o advogado.
Os dados da Serasa Experian também apontam crescimento dos pedidos de recuperação judicial na série histórica anterior: foram 2.273 em 2024, ante 833 em 2022. Já na metodologia atualizada, 2025 contabilizou 977 processos envolvendo 2.466 empresas. Como houve mudança metodológica, os números devem ser analisados separadamente.
Na avaliação do especialista, a demanda por reestruturações poderá permanecer elevada nos primeiros anos do próximo mandato, diante do custo financeiro, do endividamento acumulado e das adaptações tributárias. Esse cenário, porém, não representa uma previsão exata do número de processos: mudanças na política econômica, maior acesso ao crédito e crescimento acima do esperado podem alterar as perspectivas.
Cristiano ressalta que as empresas devem agir antes que as dificuldades financeiras comprometam suas operações. O mapeamento das dívidas por custo e prazo, a revisão do fluxo de caixa e a avaliação de alternativas, como negociações estruturadas, mediação e recuperação extrajudicial, podem ajudar a identificar caminhos para reorganizar os compromissos financeiros.
Prevista na Lei nº 11.101/2005, a recuperação judicial é um mecanismo para reorganizar as dívidas de empresas em crise e possibilitar a continuidade de negócios viáveis. Por isso, identificar sinais de dificuldade financeira e avaliar alternativas antes que a situação comprometa as operações pode ser decisivo para preservar a atividade empresarial.
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