Para Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, a continuidade na Presidência e a nova composição do Congresso colocam em evidência o controle dos gastos públicos, as condições de financiamento e os impactos sobre a compra e a locação de imóveis.
O desempenho do mercado imobiliário em 2027 tende a depender das condições de crédito, dos custos da construção civil e das decisões fiscais do país. Para Daniel Claudino, mais do que a continuidade na Presidência da República, a atenção deve estar voltada à composição do Congresso Nacional, especialmente do Senado, que terá renovação de 54 das 81 cadeiras, o equivalente a dois terços da Casa.
“O Congresso tem papel fundamental na fiscalização das contas públicas e no controle dos gastos. A composição do Senado será importante para acompanhar as decisões fiscais e seus possíveis reflexos sobre o endividamento, os juros e a atividade econômica”, avalia o especialista.
A trajetória da taxa básica de juros também será determinante. Após a Selic cair de 15% para 13,75% ao ano, novas reduções são possíveis, desde que haja avanço no controle dos gastos e do endividamento público. A possibilidade, porém, precisa ser considerada com cautela, já que a inflação permanece acima do teto da meta, fator que influencia as decisões de política monetária.
Juros menores tendem a favorecer o financiamento imobiliário e ampliar as condições de compra para famílias e investidores. Por outro lado, a manutenção de taxas elevadas pode levar incorporadoras a adiar lançamentos, restringindo a oferta futura de imóveis tanto para venda quanto para locação.
Esse cenário também afeta quem mora de aluguel. Quando a compra da casa própria fica mais difícil, parte da demanda permanece no mercado de locação. Se, ao mesmo tempo, os juros elevados desestimularem novos empreendimentos, a oferta futura poderá ser limitada e os preços dos aluguéis poderão sofrer pressão, dependendo das condições de cada região.
Os indicadores do setor precisam ser analisados conforme seu período de referência. Os dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) referentes ao primeiro semestre ajudam a dimensionar o desempenho recente, mas não permitem afirmar que o mercado encerrou 2026 com crescimento nas vendas. Já o avanço do financiamento à construção em comparação com o início de 2025 deve ser interpretado considerando que a base de comparação era mais fraca, conforme ressalva da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
No segmento habitacional, o Minha Casa, Minha Vida também mantém participação relevante. Dados divulgados pela CBIC apontaram que o programa respondeu por 58% dos lançamentos residenciais no período analisado, com 62.129 unidades. O indicador reforça a importância do financiamento habitacional para a dinâmica do setor.
Os custos da construção civil são outro fator a acompanhar. O Índice Nacional de Custo da Construção — Mercado (INCC-M), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), acompanha a variação dos custos do setor. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mede a inflação oficial do país. Ambos ajudam a compreender o ambiente econômico em que famílias e empresas tomam decisões.
Na avaliação de Daniel, o imóvel deve ser considerado sob uma perspectiva de longo prazo, para além das mudanças de governo. O Brasil já atravessou diferentes ciclos políticos, e o patrimônio imobiliário pode acompanhar essas transições como investimento. Ainda assim, a decisão deve considerar fatores como localização, finalidade, capacidade financeira e horizonte de investimento, sem desconsiderar os riscos do mercado.
“O imóvel é um ativo que pode atravessar diferentes ciclos políticos e econômicos. Por isso, a análise precisa ir além do governo de ocasião e considerar o planejamento de longo prazo. Isso não significa ausência de riscos, mas a importância de avaliar o investimento de forma estratégica”, afirma.
Para o especialista, a responsabilidade fiscal deve ser uma preocupação permanente, independentemente do partido que esteja no poder. A sociedade precisa acompanhar as decisões do Legislativo e cobrar dos seus representantes, especialmente dos senadores, compromisso com o controle dos gastos e a sustentabilidade das contas públicas.
“É fundamental que a população cobre responsabilidade dos congressistas, principalmente dos senadores, na fiscalização dos gastos e nas decisões que afetam as contas públicas. A previsibilidade econômica interessa a todo o país e influencia diretamente as condições de financiamento e o planejamento de quem deseja comprar, construir ou alugar um imóvel”, conclui Daniel Claudino.
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